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Abstract from Fr Nuno's new book

 

Fr Nuno with his new book


Abstract

According to the statistics, there is new sociological data: in Portugal, from the seventies onwards, the dying process was transferred from the family home to the hospital. Following the analysis of a survey applied to health care professionals, at the Hospital of S. João, in Oporto, we are led to think that this is merely not a change of location. We have defined such a process as deslugarização, because it seems to shape a socio-cultural denial of place. This hypothesis is supported by much of the literature on death and dying, numerous in the western world since the end of the World War II. The hospital became the unplace of the majority’s dying, concept that we base on the contributions of M. Foucauld, M. Augé, and Anthony Giddens, which coined the concepts of heterotopias of deviation, non-place, and arenas of sequestration, respectively. The experience of dying, too threatening for the psychological and ontological security of late modernity, is removed from social contact, as well as no longer able to be considered within the integrating equilibrium looked for by culture itself. Therefore, there is a need to look for ethical coordinates in order to tackle this situation. The precedence of anthropology safeguards and strengthens the priority of ethics. A brief reading of the anthropological heritage of the last century, lead us to the thought of Pedro Laín Entralgo and his proposal of an integrated anthropology, an adequate hermeneutical horizon for the revisitation of Cicely Saunders’s intuition – the concept of total pain, in which palliative care are grounded. In times of technocosmic domination, along with its gradual ethically refractory and inhuman paradigm, they emerge as the matrical place both of medicine and hospital, converging with the ethical roots of hospitality understood as the ethical core of Jewish-Christian tradition. Therefore, the hospital needs to define itself as an ethical body in dialogue with the professional deontology, by itself insufficient to assure as such. Through this will pass the conversion of the hospital, from unplace of dying into an embracing place of the dying, a cultural institution which should be able to practise a socio-cultural pedagogy of death and dying. It is asserted as well the oportunity to individuate, within bioethics, a line of research, reflexion and systematic proposal on these issues – the anthropo-tanato-ethics – whose contibution is fundamental for the definition of a politics of death.

Resumo

As estatísticas demonstram um dado sociológico novo: em Portugal, a partir da década de setenta do séc. XX, o morrer abandonou a casa familiar e transferiu-se para o hospital. Neste fenómeno, depois de analisados inquéritos aplicados a profissionais do Hospital de S. João, no Porto, somos levados a ver mais do que uma simples mudança de local. Definimos o processo como deslugarização, porque nos parece configurar uma negação sociocultural de lugar. Esta hipótese é confirmada por muita da bibliografia sobre a morte e o morrer, abundante no mundo ocidental a partir do fim da Segunda Guerra Mundial. O hospital tornou-se o deslugar do morrer das maiorias, conceito que fundamentamos recorrendo contributos de M. Foucauld, M. Augé e A. Giddens, respectivamente heterotopia de desvio, não-lugar e arena de sequestro. A experiência do morrer, demasiado perturbadora da insegurança ontológica e psicológica da modernidade tardia, é afastada do contacto social, ao mesmo tempo que a cultura deixa de conseguir considerar a morte nos equilíbrios integradores que busca. Há que procurar coordenadas éticas para fazer face a esta situação. A precedência da antropologia salvaguarda e potencia a prioridade da ética. Uma rápida consulta a algumas referências da herança antropológica do século que terminou conduz-nos ao pensamento corporalista de Pedro Laín Entralgo e à sua proposta de uma antropologia integradora, horizonte hermenêutico adequado a uma revisitação da intuição de Cicely Saunders – o conceito de dor total, fundante dos cuidados paliativos. Estes, em tempos de dominação tecnocósmica e do seu paradigma tendencialmente inumano e refractário à ética, afirmam-se como um lugar matricial da medicina e do hospital, ponto de encontro com as raízes de uma ética da hospitalidade, percebida como núcleo ético da Tradição judaico-cristã. Para tal, é necessário que o hospital se assuma ele próprio como organismo ético em diálogo com as deontologias profissionais, por si insuficientes para o garantir como tal. Por aqui passará a conversão do hospital, de deslugar do morrer, a lugar que abraça os que morrem, instituição cultural capaz de exercer uma pedagogia sociocultural de integração da morte e do morrer. Afirma-se, ainda, a oportunidade de individuar, dentro da bioética, uma linha de investigação, reflexão e proposta sistemática sobre estas questões, a antropotanatoética, cujo contributo é fundamental para a definição de uma política da morte.